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  3. Quilombos: a luta pelo resgate da história e da terra

Por Cesar Munhoz
19/11/2007

Quilombos, de acordo com a definição tradicional, são agrupamentos de negros fugidos das fazendas de escravos da época do império. Nesses locais, eles encontravam um meio de sobreviver longe do trabalho forçado, plantando para garantir sua subsistência e mantendo sua cultura preservada. É o caso da comunidade de Centro do Expedito, no município de Codó (MA), onde vive Francisco Carlos da Silva, Coordenador de Finanças da Associação das Comunidades Negras Rurais do Maranhão. “Minha comunidade começou a se formar com fugas de escravos. Eles iam fugindo das fazendas e acampando às margens de um rio bem próximo chamado Codozinho.”

A noção clássica de quilombo também diz que eram comunidades completamente isoladas do mundo à sua volta, e é justamente aí que esse conceito (ou pelo menos a aceitação absoluta dele) começa a ruir.

Conforme explica a geógrafa e historiadora Lourdes Carril, a sociedade brasileira do tempo da escravidão era mais dinâmica e complexa do que se imagina. Aparentava ter divisões bastante rígidas entre senhores e escravos, mas não era bem assim. Ou seja, as fazendas e os quilombos estabeleciam relações políticas e, principalmente, comerciais. Por exemplo: os senhores viam nessas comunidades uma fonte de alimentos produzidos a baixo custo.

Outra noção que não pode ser generalizada é a de que todos os quilombos foram formados por escravos fugidos. Houve casos em que os negros herdaram as fazendas de seus antigos donos, e muitos desses processos de doação foram registrados em cartório, como aconteceu com o Vale do Ribeira, comunidade do município de Ivaporunduva, São Paulo. Também foi o caso da comunidade do Bom Jardim, em Santarém, Pará. “As terras foram doadas aos escravos pelo senhor da fazenda Bom Jardim. Ele passou para os seus escravos uma escritura que dizia que o Bom Jardim não poderia ser vendido, ou seja, teria que ser passado de geração em geração. Lá tem 300 pessoas, com 76 famílias”, conta Dileudo Guimarães dos Santos, que vive na comunidade e é presidente da Federação das Organizações Quilombolas de Santarém (PA).

Há, ainda, casos em que o dono simplesmente abandonava as fazendas e os escravos no momento em que a terra e as atividades desenvolvidas nela deixavam de ser interessantes economicamente. “É como se um empresário de hoje, de um dia para o outro, abandonasse a fábrica com suas 'máquinas' dentro. Os escravos eram vistos assim, como máquinas”, comenta Lourdes Carril. Eles, então, passavam a usar a terra para sua subsistência.

Muita gente se pergunta por que e como podem existir quilombos ainda hoje, afinal, a história deles está ligada ao período da escravidão no Brasil. O fato é que, depois que se entende o quilombo não apenas como um “centro de resistência”, mas sim como uma comunidade propriamente dita, onde as pessoas vivem, moram, comem e trabalham, é natural que permaneçam assim até hoje. A seguir, você vai conhecer como são os quilombos de hoje e quem vive neles.

Se você pensar bem, a exclusão contra o negro no Brasil continua tendo praticamente a mesma força de antigamente. Não se pode mais acorrentar o negro ao tronco, mas ele continua sendo privado de uma vida próspera à medida que é discriminado no mercado de trabalho, que tem sua importância na História do país negada e, no caso dos quilombolas remanescentes, ao lhes serem refutadas as terras para a sobrevivência.

“É parecido com o que era antes”, explica o quilombola Francisco Carlos da Silva. “A diferença é que naquela época existia a chibata, era uma opressão mais explícita. Hoje, a exclusão é disfarçada. Descendentes de escravos não têm uma boa Educação, não têm boa escola... E quem não conseguiu resistir à opressão dos fazendeiros teve que deixar suas terras, ir para as periferias das cidades e hoje vive numa situação desumana. Quando se fala em direito do quilombola, a gente percebe que há muito receio, muito preconceito por parte da população não-negra. Então, ainda hoje as pessoas têm medo de dizer que são quilombolas, ou, quando vão fazer documentos, ainda usam termos como ‘pardo’ e ‘moreno’. Acham que, colocando dessa forma, será mais fácil serem aceitos por uma sociedade racista.”

“A periferia é a senzala. O Morumbi (bairro nobre de São Paulo) é a casa grande, dizem as letras de artistas como os Racionais MCs”, comenta Lourdes Carril, que estuda a identificação dos movimentos rap e hip-hop com causa quilombola. “É uma identificação que reflete uma situação de desigualdade muito forte ainda, que tem sua base na questão da cor.”

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