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  3. Recife - Uma Veneza tropical?
  por Walter Garcia

Conta uma lenda local que os Rios Capibaribe e Beberibe se uniram às portas do Recife para formar o Oceano Atlântico. Felizmente, isso não passa de lenda. Caso contrário, o oceano que banha a costa brasileira não passaria de um imenso esgoto.

De todas as cidades que visitamos até agora, em seis anos de viagens pela costa do Brasil, sem dúvida, Recife é visualmente a mais suja em relação à água. Vista do alto, a capital pernambucana é uma mistura de água e terra, com diferentes rios e canais que cortam o centro e bairros da cidade.

Como dizem os moradores do local, é uma "Veneza tropical". No entanto, por causa do descaso em relação ao saneamento básico, a definição da secretária estadual de Recursos Hídricos e Meio Ambiente, Alexandrina Sobreira de Moura, está bem mais próxima da realidade: “Recife é a Veneza contaminada”.

Não é para menos. Dos 3,38 milhões de metros cúbicos de esgoto produzidos mensalmente pelos quase 1,5 milhão de habitantes, apenas 33% são coletados. Desses, só 70% passam por estações de tratamento; o restante é jogado nos rios ou em fossas in natura. E, para complicar, o lençol freático da cidade é muito raso, e duas horas de chuva são suficientes para que as fossas transbordem. “Para evitar isso, as construtoras, quando fazem os prédios, colocam uma espécie de ‘ladrão’, que liga as fossas às galerias de águas pluviais (por onde escoa a água das chuvas). Dessa forma, o esgoto vai direto para os rios. Mas não pense que isso é novidade. Todo mundo sabe que é assim, só que, como não há rede de esgoto, não há alternativa e também não existe uma fiscalização rígida em relação a esse problema”, disse-me um proprietário de construtora.

Recife talvez seja a única cidade que conhecemos em que o esgoto a céu aberto é totalmente democrático. Ele não atinge apenas favelas e periferias, como acontece em outras cidades brasileiras, mas está espalhado por toda a capital pernambucana, desde a lagoa que abriga as lanchas e veleiros do Cabanga Iate Clube — que reúne as famílias mais abastadas da cidade — até a água sob as palafitas de Brasília Teimosa, uma favela da cidade. Na fronteira do principal shopping da capital, os canos de PVC denunciam o despejo de esgoto diretamente do vaso sanitário das casas e bares da favela vizinha em um pequeno córrego.

Basta andar alguns quarteirões para sentir as conseqüências do descaso. Nas proximidades do canal de Setúbal — que recebe dejetos de várias redes de esgoto ligadas clandestinamente à rede pluvial —, o odor é quase insuportável, e a cena também não é nada agradável: é tanto esgoto que, no verão ou em dias mais quentes das outras estações do ano, os motoristas são obrigados a fechar as janelas do carro. O cheiro é tão forte que, muitas vezes, provoca náuseas em turistas, como nós, não acostumados a esse tipo de ar fétido.

Para o diretor técnico da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), Álvaro José Menezes da Costa, esses problemas tendem a piorar nos próximos anos devido ao crescimento demográfico na capital e à falta de investimentos no setor.

Estudos feitos pela empresa e pelo governo do Estado mostram que são necessários investimentos da ordem de R$ 800 milhões para que a rede de esgotos chegue a 80% da população. “Nenhuma empresa de saneamento tem condições de realizar obras desse porte. E o problema não é só a falta de recursos. No passado, já tivemos dinheiro e não adiantou muito. É preciso ter dinheiro, aplicá-lo bem e desenvolver um processo de gestão continuada, pois, depois de investir, você tem de operar o sistema e fazer manutenção preventiva, senão, em seis anos, ele entra na obsolescência que existe hoje: estações que não funcionam, equipamentos que não se consegue substituir, e, de repente, instala-se um caos”, diz o diretor. Segundo ele, o último grande investimento no setor foi feito em 1997, na época do governo de Miguel Arraes, por meio do Programa de Ação Social e Planejamento, com recursos do Banco Interamericano. Em 1998, a obra foi interrompida por falta de investimentos e só foi concluída em 2002 graças ao programa Águas de Pernambuco. “O governo investiu R$ 15 milhões provenientes dos recursos que obteve com a venda da Companhia de Eletricidade de Pernambuco (Celpe)”, relata.

Para dar uma idéia melhor de como o sistema está obsoleto, uma das três estações elevatórias de tratamento é do início do século passado, e determinadas partes da rede de escoamento são bem mais antigas.

“Esta ilha do Recife (o centro) é toda saneada, mas algumas manilhas são da época da invasão holandesa. Sem dúvida, a solução para o problema passa pela necessidade de mais recursos e investimentos no setor, mas também por uma capacitação maior do fornecedor do serviço — no caso, nós da Compesa — e, principalmente, por uma questão cultural da população. As pessoas têm de entender que precisam cobrar mais e manter essa cobrança. Se não fizerem isso, não vai haver uma solução permanente; a empresa vai continuar atendendo pontualmente os problemas que aparecem: assim que resolve um, vira para o lado e vai resolver o próximo, sem pensar na necessidade de uma gestão mais complexa”, explica o diretor.

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