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Museu Recife

Quando as contas não batem e o “a pagar” é maior do que a féria economizada ao longo do mês, o taxista Jerônimo Ribeiro, 51, encosta o carro na Rua Navegantes, em Boa Viagem, Recife, e se afasta do estresse do trânsito para “respirar” mar, sol, arte e cultura. Por vezes, sentindo-se pressionado pela situação, ele passa longos minutos em frente à escultura Prisioneiros II — para ele, essa é a mais bela das quase 1.300 obras espalhadas pela cidade. Tortura Nunca Mais é outra obra que encanta Jerônimo. “Minha ‘higiene’ é ver o mar e as esculturas. Olhar essas peças é como ler um livro, a gente vai tomando gosto e quer ler sempre mais”, diz.

Já para o porteiro Dilson José da Silva, 35, as esculturas postadas em frente aos edifícios da cidade são sinônimos de conquista e prazer. “De todas as que eu já vi, esta aqui é a mais bonita. De vez em quando, trago uma namorada aqui para frente, mostro a escultura e finjo que entendo do assunto”, afirma. “E qual é o resultado?” — pergunto. “Elas ficam encantadas com a minha cultura, e acaba dando jogo”, afirma Dilson, às gargalhadas.

Para os mais atentos, Recife é assim: um imenso museu de arte a céu aberto, pronto a ser visitado. Graças a uma lei municipal de 1961, prédios com mais de 1.000 m2 de área construída só recebem o alvará de construção se na planta estiver especificado o local onde será colocada uma escultura ou um painel. Além disso, a obra de arte deve ser encomendada a um dos artistas cadastrados na Prefeitura da cidade. Essa obrigação, segundo o escultor Jobson Figueiredo, acabou fazendo com que Recife se transformasse no maior museu de arte a céu aberto do mundo. “Nem mesmo em Paris há tanta obra de arte nas ruas quanto aqui”, compara o escultor. E a lei também permitiu que artistas famosos, como Abelardo da Hora, Jobson Figueiredo, Corbiniano e Francisco Brennand invadissem o cotidiano de turistas e recifenses. “O rico, quando quer ver obra de arte, engravata-se e vai para o museu com ar condicionado. Eu não; só passeio pelas ruas”, conta o pedreiro Juvino, que, de tanto colocar esculturas em prédios da cidade, vai sendo atraído para o mundo das artes.

Investimento imobiliário

Atentos a esse comportamento característico dos moradores da cidade, alguns empresários estão investindo cada vez mais nas esculturas. Para Mônica Fragoso, 35, gerente da construtora Kitover, a escolha da peça que vai enfeitar cada prédio novo já é considerada o momento mais interessante da construção. “Sempre há uma pequena briga com os artistas quando o assunto é preço, mas, fora isso, essa etapa é maravilhosa. Além disso, nós não estamos apenas obedecendo à lei; estamos fazendo arte também, e arte alimenta a alma”, diz a engenheira.

Mas nem sempre foi assim. Se hoje as peças e a lei agradam turistas, moradores da cidade e até alguns empresários, no passado, a situação era bem diferente. No início, a lei foi questionada por empreiteiras, desobedecida abertamente e até engavetada pelos militares do golpe de 64.
A maioria dos envolvidos no projeto, que fazia parte do Movimento Cultural Popular, acabou nos porões da ditadura. “Eu mesmo fiquei um ano preso. Era vizinho de cela do Gregório Bezerra e só não morri porque o prefeito (empossado pelos militares) era meu cunhado”, lembra o autor da lei e escultor Abelardo da Hora.

Os anos passaram, os militares deixaram o poder e, com o tempo, a arte nas construções conquistou espaço. Ter uma escultura no jardim deixou de significar apenas gastos a mais e assumiu características de investimento, sendo um atrativo para os compradores.

Fazendo uma comparação, é como se as esculturas e painéis saíssem do patamar de cálculo estrutural (obrigatório, mas sem apelo comercial) e de custos para atingir o status de fachada de luxo. “Sem dúvida, quando o proprietário do Ilha do Leite, cuja entrada do prédio é dominada por um imenso painel de Brennand, quiser vender o escritório, a obra do artista vai pesar na negociação”, diz Mônica Fragoso.

Basta ter uma simples calculadora na mão para entender essa afirmação. A escultura O Pescador, de Corbiniano, que será colocada no edifício Mar do Porto, próximo lançamento da construtora Kitover, foi negociada por R$5 mil. Dividida entre os 13 condôminos, custará a cada um deles R$360, um valor pouco expressivo para quem está disposto a pagar R$450 mil pelo apartamento. Nos prédios de classe média, percentualmente a situação não é muito diferente: se, por um lado, o preço do apartamento é mais baixo, por outro, o valor da obra é dividido por um número bem maior de proprietários.

A arte que invade as ruas, aos poucos, também entra nas casas até mesmo de cidadãos de classe média. Diante da dificuldade para comprar uma obra inédita de Abelardo da Hora, os pernambucanos se unem em consórcios para conquistar o direito de ter uma obra dele em suas salas.

Falta de critério

No entanto, onde sobram resquícios do passado, a simples matemática não funciona, e peças medíocres acabam ocupando grandes espaços nas ruas da cidade. Para o arquiteto Maurício Castro, 69 anos e 47 de profissão, “É necessário que haja critérios de avaliação mais rigorosos para que a lei não dê mais espaço a imensas porcarias do que a belas esculturas e painéis. Em frente à minha casa, existe uma obra que chega a ser uma agressão ao bom gosto”.

O escultor Jobson Figueiredo concorda com o arquiteto e defende que, para ganhar o direito de expor na rua vendendo obras para as construtoras, o artista deve ter, no mínimo, cinco exposições em que seus trabalhos tenham sido considerados de qualidade. “Mais do que incentivar o mercado, a lei deve funcionar como um presente para Recife”, diz Jobson.

No intuito de economizar alguns reais, ainda existem empreiteiras que preferem evitar adquirir esculturas de qualidade. “Qualidade e preço baixo não combinam, e o empresário de pouca visão quer ganhar o máximo possível em cada prédio que lança. Não é o que aconteceu na Pirelli, por exemplo. As peças colocadas lá eram tão boas que, quando a empresa decidiu sair da cidade, levou com ela duas das três obras de arte. Aquilo sim era uma maravilha”, afirma Castro.

Não se sabe exatamente de onde vem a ligação do recifense com a arte. A lei de 1961 seria a causa ou uma simples conseqüência dela?
O fato é que, caminhando pela cidade em busca de painéis e esculturas, pela primeira vez na vida encontrei uma oficina de carros em que os tradicionais calendários de parede perderam espaço para estatuetas de mulheres nuas.

No Shopping Center Recife, o maior da cidade, a criação de um museu que reúne os mais expressivos escultores do Nordeste tornou-se um atrativo a mais. Ao contrário dos museus freqüentados pelos “engravatados”, como diz o pedreiro Juvino, este permite a interação entre público e arte. Quer um exemplo? Ao visitar Recife no início de novembro de 1999, a menina Dalline da Cruz Guimarães não se conteve e decidiu posar para uma foto ao lado da escultura de cimento. Seu irmão, mais ousado, preferiu deitar com a mulher nua de Abelardo da Hora e agarrar-lhe os seios. “Isso aqui é muito lindo! Todas as vezes que venho a Recife, faço questão de vir aqui ver esses trabalhos, e meus filhos também adoram”, conta Valdenice Santos da Cruz, professora e mãe das duas crianças. A visita ao pequeno museu de arte no shopping por pouco não fez a família perder o ônibus para Maceió (AL).

Pedreiro artista

Antão Alves foi criado em uma olaria na Paraíba. Aos 8 anos, mudou-se para São Paulo para ser barman de botequim. Ao voltar para o Nordeste, em 1981, com 14 anos de idade, mais do que uma promessa de museu a céu aberto, encontrou na lei o apoio para o primeiro emprego. “A lei deu espaço para que eu me transformasse em artista. Durante sete anos, eu trabalhei no ateliê do Jobson e aprendi lá tudo que sei sobre esculturas. Agora, domino diversas técnicas e já posso galgar meu próprio caminho”, diz.

Artista regional premiado, Antão participou com três trabalhos da exposição “Pernambucanos”, realizada na galeria Mason Design, no Brooklin (SP). Mas o grande sonho de quem moldou a carreira em um ambiente artístico tão diferenciado é conseguir chegar à rua. “É muito legal expor as obras em galerias, mas o auge para o artista da terra é poder colocar uma escultura em frente a um prédio, onde está o povo e onde a peça vai ser discutida e criticada por milhares de pessoas. Algumas apenas acham bonita, outras querem saber quem é o autor e o que ela quer dizer... Isso é maravilhoso!”, diz. “Mas como saber o que o povo está achando?” — pergunto.

“Vou parar ao lado da escultura e ficar ali olhando, só para ver como os outros reagem a ela. Quem sabe eu até puxe uma conversa como se eu não tivesse nenhuma ligação com a obra”, revela.

Mas o sonho que Antão persegue há seis anos ainda parece distante. Mesmo num mercado tão vasto, são poucos os artistas que dominam a preferência das construtoras. Entrar nesse mercado fechado não é fácil.

Enquanto o desejo não se concretiza, o artista vai vivendo dos cursos de esculturas e de serviços que presta ao colaborar na confecção de obras de Cavani, José Paulo e Mozart Guerra e também das próprias obras que vende para consultórios, casas e apartamentos. Durante a entrevista, Antão aponta uma peça que está no canto da sala: “Esta é a ponte de Nietzsche (Friedrich Nietzsche, filósofo alemão). Ele costumava dizer que o homem é uma ponte. Então, juntei os dois (homem e ponte) em uma estrutura só. Não me atrevo a vender esta peça. Sonho em, um dia, colocá-la na rua, com quatro metros de extensão por três de altura, para que as pessoas possam passar embaixo (onde está esculpido o corpo de um homem) e, como o filósofo, sentir o peso concreto nas costas do ser humano”, revela o artista. Entre ensaios e delírios alimentados durante seis anos, já são oito obras à espera de uma construtora que possa expor mais um artista no “maior museu a céu aberto do mundo”.

   
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