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por Walter Garcia

Verbas empregadas no combate à seca de forma inadequada, desertificação, mau uso dos recursos hídricos e muita poluição dos rios e açudes que abastecem as cidades. Diante de 500 anos de incompetência no tocante às questões que envolvem o semi-árido brasileiro, os secretários de Recursos Hídricos e Meio Ambiente dos nove estados do Nordeste e de Minas Gerais se reuniram em Campina Grande (PB), entre os dias 6 e 8 de maio, para dividir experiências e buscar soluções capazes de levar água e qualidade de vida ao sertanejo brasileiro.

Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

Enquanto em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e em boa parte dos grandes centros urbanos brasileiros os principais fantasmas presentes no cotidiano das pessoas são o desemprego e a violência, em Campina Grande, a segunda maior cidade da Paraíba, o Fred Kruger é outro: a água, ou melhor, a falta dela. Em um concurso de desenhos com tema livre, promovido entre alunos das escolas estaduais do município, 70% dos trabalhos estavam relacionados à água.

Diante de uma população tão engajada e consciente do problema, nada mais lógico do que o Fórum de Secretários de Recursos Hídricos do Nordeste, promovido pelo governo do estado da Paraíba, acontecer exatamente nessa região. “Em vez de escutar minha avó contando histórias da carochinha, cresci ouvindo sobre como aproveitar melhor a água, como cobrir os poços para o Sol não bebê-la e como evitar sua contaminação”, lembra Cosete Barbosa, a prefeita da cidade.

Na tentativa de encontrar soluções para o problema, reuniram-se na cidade representantes políticos dos nove estados do Nordeste e de Minas Gerais, todos afetados pelo semi-árido, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, representantes da Agência Nacional das Águas e da Secretaria Nacional da Infra-Estrutura Hídrica e agentes financeiros nacionais e internacionais.

O intuito? Dividir experiências que estão em andamento nos diferentes estados, criar em conjunto políticas de gestão de combate à seca e convívio com ela e, principalmente, montar uma força política capaz de sensibilizar o governo federal para que ele preste mais atenção à questão do semi-árido. “Uma vez que há unidade em termos de problemas (seca, desertificação, necessidade de investimentos em tratamento e educação, etc.), por que não trabalhar conjuntamente e passar a brigar como uma unidade na busca de soluções e até mesmo como forma de pressão junto ao governo federal?”, diz o secretário adjunto de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Paraíba, Sérgio Gois.

Após três dias de conversas e reuniões, de prático mesmo, houve apenas a promessa da ministra de se esforçar para liberar a verba (cerca de US$ 250 milhões que já foram liberados pelo BID — Banco Interamericano de Desenvolvimento — para projetos de combate à seca, mas que estão retidos pelos Ministérios do Planejamento e da Fazenda porque o governo federal está tentando impedir que a dívida externa brasileira aumente ainda mais) em contingenciamento, que deverá ser investida no programa Pró-Água (estendido por mais dois anos), a confirmação de que o governo federal encampou o projeto Sede Zero, proposto pelo governador da Paraíba, e a certeza de que a transposição do Rio São Francisco, tão cobiçada pelos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, terá de esperar mais um pouco (o projeto já vem sendo discutido desde o fim do século XIX). Para a ministra, a obra pede mais estudos e até mesmo maior consenso, já que alguns estados da região não concordam com o projeto.

Como exemplo do que a falta de estudos bem elaborados pode provocar, Marina Silva citou que, “Desde 1980, 70 mil poços e 50 mil barragens foram construídos no Nordeste e, hoje, mais da metade está desativada, e 30% dessas águas estão salobras. Não basta ter recursos para investir, é preciso criar competência de gestão, captação e distribuição”.

Em seu encerramento, a ministra destacou o projeto do governo federal que objetiva construir, no Nordeste, um milhão de cisternas por meio de uma parceria que envolve governos, organizações não-governamentais e iniciativa privada. Entre as obras já previstas, estão 200 mil cisternas, que serão construídas pelo Ministério das Cidades, e outras 30 mil prometidas pela Febraban.

Para Marina Silva, esse é um passo importante que está sendo dado para alcançar a proposta Sede Zero, “mas ainda há muitas outras coisas a serem feitas no intuito de se alcançar esse objetivo o mais rápido possível. São propostas e projetos que envolvem todos os setores da sociedade. Além de ministra, sou militante da causa. Costumo dizer que, para resolver questões tão importantes, é preciso ter consciência de que somos todos anjos com apenas uma asa. Só vamos voar se estivermos abraçados”, concluiu a ministra.

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Seca + descaso = ?
Uma mina de propostas
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