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Pequenos gênios


Para muitos pais que passaram a infância convivendo com a máquina de escrever, quase sem nenhum acesso a aparelhos eletrônicos, ver o filho pequeno ensinando os mais velhos a usar o computador chega a ser algo fascinante. Caso do engenheiro eletrônico Fabiano Falvo. Colocou seu filho Felipe, de cinco anos, em contato com o computador quando ele mal conseguia ficar em pé sozinho, e em poucos dias o garotinho já manuseava o mouse como se tivesse nascido para aquilo. A aprendizagem na escola estendeu-se para a tecnologia: Felipe aprendeu a digitar as palavras no Paintbrush antes de entender como escrevê-las com o lápis no papel. Tinha cinco anos recém-completos e já dominava todo o vocabulário de rede. “A alfabetização dele foi no computador. Digitava as frases, apertando o espaço para separar as palavras, e o nome das pessoas da família. Hoje, tão novinho, ele ensina a avó a usar o computador. É engraçado vê-lo falar 'Vó, o seu browse está minimizado. Maximiza!'”, conta o pai, cheio de orgulho. As descobertas não pararam aí. Um dia, Fabiano o flagrou pesquisando no Google. “Eu nunca o ensinei a entrar em sites de busca. Um dia, cheguei na sala e o vi digitando o nome de um desenho animado de que ele gosta no Google Images. Eu não fazia ideia de que ele sabia usar essa ferramenta”.

Crédito:(c) iStockphoto/ RBV

O contato com o computador e o mundo que ele proporciona começa cada vez mais cedo.

Mas tanta desenvoltura com a máquina exigiu medidas de segurança. Os dois computadores na casa de Fabiano ficam nos cômodos de uso comum, protegidos com senha. “Se ele quer usar, pede-nos para desbloquear o acesso. Isso evita que ele entre na Internet quando nós não estivermos olhando”. O tempo de uso também é controlado. Em média, duas horas por semana, reservadas somente para os sites de joguinhos infantis e para assistir a desenhos no Youtube. O acesso ao Orkut é proibido. “Daqui a dois anos, quando ele estiver com sete e começar a precisar do computador para trabalhos escolares, também penso em instalar bloqueadores de conteúdo inadequado”, conta Fabiano.

Mas montar estratégias para evitar situações de risco é coisa para os pais que falam a linguagem do computador. Tatiane Martins Vieira, auxiliar de enfermagem, liberou o uso da máquina para Taiane, hoje com 14 anos, um pouco mais tarde, quando ela tinha 11. Quando a menina fez uma conta de e-mail, criou um perfil no Orkut e cadastrou-se no MSN Messenger para poder conversar com as amigas, Tatiane estava pronta para acompanhá-la, com todas as informações sobre o mundo virtual de que precisava, e passou a monitorar os acessos. “Internet só quando estamos em casa. E o tempo no computador é limitado”. Além disso, a mãe possui todas as senhas de Tatiane, para entrar em todas as contas dela para descobrir conversas que não sejam adequadas e possíveis situações perigosas.

Crédito:(c) iStockphoto/ Yuri Arcurs

Uma porta aberta para o mundo, para quem ainda tem pouca experiência de vida.

Mesmo sendo tão vigilante, um dia Tatiane levou um susto: a filha estava recebendo mensagens de um homem mais velho em um site de relacionamentos. “Quando olhei a foto do sujeito, achei que fosse meu cunhado, a foto era parecida, e a princípio não me importei. Só depois fui descobrir que era um desconhecido, quando entrei no álbum de fotos virtual dele e encontrei muitas imagens de mulheres nuas”.

Essa fiscalização se torna ainda mais eficaz se for dosada com diálogo. Não só para que as crianças estejam protegidas do mundo virtual, mas também para que cresçam de forma saudável. Marcia Coutinho Krahforst, psicóloga e coach, tem três filhos: Larissa, de 13 anos; Natalie, de 11; e Marcello, de nove. Conta que nunca teve problemas com as crianças em relação à Internet, porque todas as normas de uso do computador são seguidas religiosamente. Porém, a preocupação da mãe não é apenas com as páginas inadequadas. Sempre as orienta para que entendam a importância de também viverem no mundo real. “Isso significa jogar jogos concretos, fazer esportes, visitar amigos em casa, brincar com o cachorro e ler livros”, diz Marcia.