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Aquele que não tem pecado, que atire a primeira pedra


Por: Gabriela Brandalise

A história de uma mulher chamada Sakineh Mohammadi Ashtiani parou o mundo. Ela, que tem 43 anos e é mãe de dois filhos, foi condenada em 2006 no Irã por ter se envolvido amorosamente com dois homens depois de ter ficado viúva. O que no Brasil é uma questão de escolha (aqui, as mulheres que perderam seus maridos não precisam de permissão do governo para iniciarem outros relacionamentos), no Irã é considerado adultério. A sentença? Morte. Por apedrejamento. Sim, isso existe: a pessoa é coberta por um pano branco e tem o corpo amarrado e enterrado até a altura dos ombros. Ela é então executada com pancadas de pedras na cabeça.

Crédito: Reprodução

Foto de Sakineh Mohammadi Ashtiani

Para tentar salvá-la das conseqüências das acusações, não só de adultério, mas também de envolvimento na morte do marido, o advogado dela, Mohammad Mostafaei, tornou público o caso em julho deste ano em um blog na internet. Foi perseguido pelas autoridades iranianas e precisou fugir para a Turquia, de onde buscou asilo político na Noruega. O filho de Sakineh também usou a internet e escreveu uma carta aberta para o mundo pedindo ajuda para salvar a mãe. “Seria o mundo tão cruel a ponto de assistir essa atrocidade sem fazer nada?”, escreveu ele.

A partir daí, a sentença de morte imposta à Sakineh fez pipocar críticas em vários países. Aqui, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se manifestou oferecendo ao Irã que a viúva passasse a viver em território brasileiro. Mas a oferta foi recusada pelo governo de Ahmadinejad.

Desde que o caso ganhou a imprensa, os aiatolás estão adiando prazos. Por último, decidiram suspender o apedrejamento, no entanto, autoridades que acompanham o processo afirmam que esta suspensão não resolve o problema. Existe ainda a possibilidade de a viúva ser sentenciada à morte por enforcamento. Em maio de 2006, Sakineh chegou a receber uma pena de chibatadas. Das 100 que a lei islâmica determina, recebeu apenas 99 por “senso humanitário” do juiz.

Em agosto, em entrevista ao jornal The Guardian, ela acusou as autoridades iranianas de mentirem para justificar sua condenação. “Por todos estes anos, os oficiais agiram e tentaram me convencer de que eu sou uma mulher adúltera, uma mãe irresponsável, uma criminosa. Agora volto a acreditar na minha inocência. Não deixem que me apedrejem na frente dos meus filhos”, ela desabafou ao correspondente do jornal britânico.

Numa tentativa de ganhar razão, a televisão estatal do Irã chegou a exibir um vídeo com a suposta imagem de Sakineh confessando envolvimento na morte do marido. A imagem não permite que o rosto da mulher seja visto com clareza, por causa de um efeito borrão, e a voz foi encoberta pela tradução do dialeto local para o idioma falado no Irã. A Anistia Internacional, uma organização não-governamental, criticou a exibição. Segundo representantes da ONG no Oriente Médio, divulgações deste tipo são utilizadas com freqüência para incriminar presos, que acabam confessando crimes sob coerção ou depois de terem sido torturados.