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  3. A transformação da água em Salvador
  por Walter Garcia

Veja como é a vida de Maria Vieira da Conceição, moradora de Salvador. Depois, faça um passeio pela cidade onde você mora, prestando atenção no ambiente ao seu redor, e tente imaginar quantas “Marias” vivem próximo a você. Quantos esgotos correm a céu aberto em sua cidade? E quanto tempo levará para que essa situação atinja a todos os moradores, fazendo com que eles vivam uma realidade semelhante?

Quando Maria Vieira da Conceição, 60, mudou-se para a Rua Vale do Queimadinho, no bairro Caixa D’Água, em Salvador (BA), jurava ter encontrado o paraíso, onde poderia criar com tranqüilidade os filhos que teria. Naquela época, ela era recém-casada e tinha apenas 19 anos. Maria e seu marido pensavam que tinham “acertado a sorte grande”. O casal construiu sua casa a alguns passos do leito do Rio Queimado, um dos mananciais de Salvador, e a menos de 50 metros da primeira empresa de tratamento de água do país. Para eles, essa era uma garantia de que aquela região jamais seria esquecida pelas autoridades e, assim, nunca faltaria água para a população daquele local. Maria e seu marido acreditavam que aquele rio cristalino — tão importante para a história da cidade que mereceu, no passado, a visita do Imperador D. Pedro II — seria sempre preservado, e sua família poderia crescer em um ambiente saudável, limpo e prazeroso.

A história mostrou, porém, que esse jovem casal estava enganado. Durante algumas décadas, eles tiveram de buscar água em barris colocados no lombo de burros, o rio cristalino foi recebendo dejetos de residências e hospitais, e o paraíso se transformou em um inferno. “Quando meus filhos eram pequenos, nadavam e pescavam nesse rio. A gente comia os peixes que eles traziam para casa, e eu podia lavar a roupa na bica que havia logo ali nas margens. Hoje, o rio não passa de um esgoto; talvez o pior da cidade! Às vezes, nas épocas de seca, o cheiro é tão forte que a gente chega a sentir o gosto do esgoto quando respira pela boca. Nesses períodos, é muito comum a gente ficar com dor de cabeça”, relata a moradora.

Sem condições de comprar um terreno em outra região da cidade, Maria, o marido e os cinco filhos acompanharam a morte do rio ano após ano. À medida que aumentava a quantidade de dejetos, diminuía a qualidade de vida dessa família e de seus vizinhos. “Dá para acreditar que isso aqui era uma horta linda, onde era comum ver diferentes pássaros e sentir o cheiro das verduras?”, pergunta a moradora. E ela responde: “Não dá. Os bons tempos se foram, e a gente passou a viver em meio à imundície. Hoje, a gente dorme, acorda, toma café, almoça e janta sentindo esse fedor invadindo nossa casa. Às vezes, é difícil tomar o café de manhã, pois o estômago ainda fica ‘embrulhado’ quando o cheiro é muito forte. Temos de conviver com essa situação porque não podemos fazer nada, mas é difícil a gente se acostumar com ela. A sensação que eu tenho é de que vivi uma vida de abandono”, diz.

No início deste ano, o sentimento de impotência e rejeição desses moradores foi superado apenas pelo de raiva, quando um engenheiro da prefeitura e duas assistentes sociais visitaram a região para falar de uma possível canalização do rio. “O engenheiro e uma das moças que vieram aqui disseram que nós estávamos reclamando à toa, pois morávamos no paraíso. Enquanto isso, a outra moça ficava o tempo todo com a camisa sobre o nariz para não sentir o cheiro. Então, eu disse a eles que não sabia onde eles moravam, mas que trocaria de casa na hora com qualquer um deles, pois eu estava cansada de morar no esgoto”, conta Maria.

Ao longo do rio, além de pneus, garrafas e sacos plásticos, é possível ver manchas com mais de um metro boiando na água. “Isso aí é cocô! Quando pára de chover e o rio seca um pouco, ele se torna uma mancha só, um tapete imenso de fezes estendido na porta de nossa casa”, conta a nora de dona Maria, Rosemeire Aragão, que está morando com a sogra.

Para conseguir conviver com o odor, a vizinha Nísia Iglesias abusa do incenso, da boa sorte e dos desinfetantes com cheiro de eucalipto, mas, segundo ela, isso não resolve. “Por mais que a gente limpe, esse cheiro não sai. Morro de vergonha quando recebo visitas. Fico com medo de que elas pensem que minha casa é suja. Também morro de medo de pegar alguma doença por causa dessa situação. Eu vivo com manchas na pele por causa dos mosquitos que existem aqui, e um vizinho nosso faleceu porque adquiriu leptospirose”, diz Nísia.

Esses problemas, que parecem atingir apenas uma pequena parcela da população, afetam muitas outras pessoas; afinal, não é só o Rio Queimado que se tornou um esgoto a céu aberto em Salvador. No trajeto que ele percorre, suas águas encontram as do Rio das Tripas, que, já em 1906, foi descrito pelo engenheiro Theodoro Sampaio, então responsável pela reforma e ampliação do sistema de abastecimento da cidade, como o “infecto Rio das Tripas, sendo o capinzal irrigado com uma parte de dejetos da própria cidade, a produzir mal semelhante ao que produziria no organismo animal o derramamento interior de matérias intestinais” (trecho retirado do Livro das Águas: História do Abastecimento de Água em Salvador). Depois, todo esse esgoto acaba sendo despejado no Rio Camurujipe e em todos os outros rios e córregos que cortam a capital da Bahia.

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