Semana de Arte Moderna




   Os Sapos e a Ode ao Burguês

Mário de Andrade

Foi a noite mais agitada, ruidosa e estridente da semana. A platéia perdeu a compostura enquanto Ronald de Carvalho declamava o poema "Os Sapos ", de Manuel Bandeira. O texto faz pouco caso dos poetas parnasianos e seu jeito empolado e pomposo de escrever.

O público reagiu com gritos, urros e vaias a cada estrofe. A zoada era tanta que mesmo quem estava na primeira fila mal podia ouvir a sátira ao parnasianismo. O estilo poético mais influente da época encarnava com perfeição o apego a regras rígidas.

Mas o protesto da audiência só deu mais corda para quem queria fazer troça e transformar a semana em desbunde. Oswald de Andrade viu naquelas vaias mais um motivo de piada e brincou: "Revelaram-se algumas vocações de terra-nova e galinha-d'angola muito aproveitáveis."

Capa da revista Klaxon

No intervalo, Mário de Andrade entrou no embalo daquela confusão e declamou a "Ode ao Burguês", de seu livro Paulicéia Desvairada. A ode tinha o objetivo de "assustar a burguesia que cochila na glória de seus lucros". O poema deixou industriais e fazendeiros de café furiosos e vermelhos de raiva. Muitos deles haviam dado apoio financeiro para a realização da semana.

Mas as manifestações de protesto dos modernistas não eram unanimidade entre os poetas. Manuel Bandeira recusou-se a comparecer ao Teatro Municipal e engrossar o coro daqueles que pretendiam chocar a fina flor da sociedade paulista. O poeta também não aderiu completamente ao estilo defendido pelos modernistas, conforme revela sua correspondência a Mário de Andrade:

"Essa mania tua de escrever brasileiro é irritante por ser sistemática. Admito que se tome à linguagem brasileira o que ela tem de bom, de suave, de expressivo. Mas não o que ela tem de feio (...) Acho um erro teu sistema."

Tal estilo tinha por base o verso livre e a vontade de expressar a realidade brasileira, através de uma linguagem impregnada da oralidade, do coloquialismo, da maneira cotidiana de se expressar. Havia também o conceito de verso harmônico, em que as frases são desconexas e surgem diretamente do inconsciente do escritor. Todas essas idéias seriam difundidas principalmente na revista Klaxon, lançada em maio, cerca de três meses depois da semana de 22.





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