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"O que aconteceu no Timor foi um caso único", afirma Marden Machado

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 Paulo Markun
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 Marden Machado
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Marden Machado é jornalista e assessor de imprensa do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR).
Você tem experiência, como voluntário da ONU, em acompanhar eleições em áreas de risco. Você já tinha visto algo parecido: um país votar sua independência em um plebiscito, como no caso do Timor Leste?

Essa foi minha terceira participação em uma missão internacional a serviço da ONU. O que aconteceu no Timor foi um caso único porque, em todas as outras eleições desse tipo de que eu tive notícia, o país tinha enfrentado um problema de guerra civil e a ONU interveio justamente para tentar redemocratizar o país, instalando, em alguns casos, governos provisórios; em outros, dando suporte logístico e operacional. O Timor era um pouco diferente. Era um país que deveria ser independente desde que Portugal saiu, mas sofreu um processo de invasão. Só depois de muita pressão internacional, Indonésia, Portugal e ONU chegaram a um acordo para a realização do plebiscito. Mas, em nenhum momento, havia o interesse da Indonésia em abrir mão facilmente desse território.

Como essa intenção de não abrir mão do Timor Leste se manifestava no dia-a-dia da ilha?

A partir de dezembro de 1998, logo após a primeira reunião para tratar o acordo, foi favorecida a criação das milícias, que começaram a pressionar e a ameaçar a população para que ela fosse contrária à independência.

É possível provar que era a Indonésia que patrocinava essas milícias?

Ficou claro que os armamentos eram fornecidos pelo Exército. O mentor intelectual das milícias era o general Wiranto, que foi até deposto quando houve mudança no governo indonésio. Todo mundo lá sabia disso. Os próprios policiais militares que deveriam garantir nossa segurança sabiam que quem fizesse algo contra algum miliciano receberia represálias do Exército. Eles chegaram a contar isso para a gente. (risos) Muitos deles eram timorenses ou casados com timorenses. Já tinham criado laços com habitantes do país e sentiam aquela pressão.

O acordo para a realização do plebiscito foi assinado no final de 1998, mas ele só veio a ocorrer em 30 de agosto de 1999. Então foram oito meses de intimidação... Houve algum incidente?

É, oito meses. Em maio foi assinado o acordo que criou a Unamet - United Nations Mission in East Timor - e o trabalho começou do zero. No local onde trabalhei, o distrito de Liquiça, quatro meses antes da eleição houve um massacre na igreja. Mais de 100 pessoas foram assassinadas! Elas saíam da missa e foram cercadas por milícias. Elas voltaram por achar que, refugiando-se na igreja, estariam protegidas, mas não houve jeito. A igreja foi invadida, a casa paroquial, ao fundo, também.

Só que nada disso surtiu efeito, a população compareceu em massa às urnas, não é?

Sim, pouco mais de 98% dos eleitores compareceram e votaram. Isso porque, logo após o período de cadastramento, que durou 21 dias, a ONU deu início a um trabalho de orientação, de educação cívica, dos eleitores locais, que nunca haviam votado antes. Eles não conheciam as cédulas, os procedimentos.

E a Indonésia fez de tudo para complicar a vida dos eleitores logo na primeira votação da história do Timor Leste. Que artifícios eles usaram?

É verdade, tanto que a gente nem podia usar o termo plebiscito. Nós deveríamos nos referir à eleição como consulta popular. A própria cédula era, na verdade, um grande jogo de palavras que induzia à confusão. Você tinha que optar por dois nomes: rejeição ou aceitação. Se você rejeitasse, estava votando pela manutenção da Indonésia, pela incorporação definitiva da ilha à Indonésia. Se você aceitasse, estaria querendo a independência. Eles espalhavam mentiras em relação às urnas ou faziam brincadeiras com palavras: “Rejeite a Indonésia”, ou diziam: “Se a Indonésia for embora, o Timor vai virar um mar de sangue”, “Se a ONU assumir o governo, o Timor será dos estrangeiros”. Eles faziam alusão à Austrália ou a outro país que poderia ter interesse em ocupar a ilha. Os habitantes ficavam assustados, sem saber no que acreditar.

Como transcorreu esse cadastramento?

O período de cadastramento foi extremamente tranqüilo. Na região onde trabalhei não houve incidente grave, só intimidações, mas nada violento. Nessas três semanas, todas as pessoas que preenchiam os requisitos para votar se cadastraram. O princípio básico para ter direito a voto era ser timorense ou filho de timorense.

A toda eleição precede um período de campanha política. Como foi o debate entre quem era pró e contra a independência? Havia indonésios fazendo algum tipo de horário eleitoral gratuito? (risos)

Exato. Eles faziam comícios, carreatas, passeatas, existiam as tevês indonésias que eram retransmitidas no país, com maciça propaganda pró-Indonésia. Então, os focos de resistência se limitavam à região das montanhas e a um ou outro distrito onde a resistência tinha mais força. Mas tudo às escondidas, de maneira muito clandestina.

E como era o clima em Liquiça? Era um lugar pacífico?

Eu fiz parte da segunda equipe que foi trabalhar em Liquiça, que fica a 32 km de Díli. Foi um dos dois distritos em que o trabalho da ONU sofreu represálias (o outro foi Maliana, no sul da ilha). Houve um cerco a um comboio que levava medicamentos e alimentos para a população. O material foi saqueado e o primeiro grupo de oficiais eleitorais distritais da ONU teve de ir embora. Liquiça ficou sem nenhuma presença da ONU por quase duas semanas. Por motivo de segurança, nós não nos mudamos de imediato. Nós trabalhávamos lá, mas todos os dias íamos e voltávamos em comboio, até que houve um comprometimento por parte do bupati local, que é uma espécie de prefeito, para proteger o grupo de 30 pessoas, entre intérpretes, militares e oficiais civis. Aí, nós alugamos a casa paroquial onde houve a chacina no mês de abril.

Os padres e as paróquias foram os grandes aliados da ONU no Timor Leste, não é? E também tinha o problema de nem todos os timorenses falarem português...

Sim, muito poucos falavam português, cerca de 10%. Quem fazia a campanha política da resistência eram os padres durante os sermões. (risos) Os padres não eram diretos porque sempre tinha alguém da milícia acompanhando. Mas era como uma mensagem subliminar, tudo meio vago, como: “Escolha o que é melhor para o Timor”, “Timor já sofreu muito”. Eles nunca eram claros, mas ficava nas entrelinhas que eles eram favoráveis à independência. A gente sentiu muito isso no trabalho de educação cívica, quando tivemos contato com os habitantes, cada oficial com uma região correspondente. A gente chegava e apresentava a cédula, explicava claramente o que significava aceitar ou rejeitar. A gente fazia uma encenação, uma demonstração de como seria a movimentação no dia da votação, onde ele tinha que ir primeiro para votar.

E tudo isso sem rádio ou televisão?

Sem nada. Só na voz, era um teatrinho mesmo. (risos) Isso durou duas semanas. Esse trabalho terminou três dias antes da votação.

Bem, chega o dia da votação, 30 de agosto. Até então, tinha havido muita intimidação, como você falou. Como foi esse dia, já que a comunidade internacional acompanhava tudo que acontecia?

O dia da votação foi extremamente tranqüilo, justamente por causa dos observadores de vários países: Austrália, Estados Unidos e países europeus. No dia seguinte pela manhã, todas as urnas foram recolhidas e levadas para Díli. À tarde, por volta das 5, 6 horas, teve início a contagem, que tinha duas etapas. Na primeira, a gente simplesmente abria as urnas. As cédulas foram todas misturadas para evitar que se soubesse de que região vinham os votos a favor da independência ou da integração.

Marden no dia do plebiscito.
E não houve nenhuma tentativa de fraude durante a contagem?

Não houve, até porque o processo eleitoral era muito complexo para a tecnologia existente na ilha. Se alguém tentasse fraudar, seria de forma muito grosseira. O material vinha com marca d’água, tinha leitura infravermelha. A gente nunca duvidou de que haveria fraude. Eles não teriam elementos em um país que não detém tecnologia nenhuma. Mas, no segundo dia de contagem, a pressão começou na parte externa do centro de votação. A contagem foi no Museu de História Natural de Díli, um prédio bonito, arredondado. Uma das avenidas principais de Díli passa em frente a esse prédio e essa avenida dá acesso ao aeroporto e a uma das saídas da cidade. Eles ficavam passando continuamente na frente do prédio, buzinando e atirando para o alto para nos desconcentrar. Isso durou até o final da apuração. Em alguns locais, houve focos de pressão mais extrema, mas sem mortes. Na véspera do resultado final, houve uma morte, mas sem relação direta. O motivo foi uma rixa pessoal, apesar de envolver um miliciano e um habitante. Mas no dia todo mundo achou que tivesse relação com a apuração.

Toda a contagem durou 4 dias. Isso era previsto ou houve algum atraso por conta da movimentação?

Não, era previsto. Foram dois dias de averiguação numérica e dois para a contagem definitiva dos votos. Quando chegou na noite do terceiro dia, uma sexta-feira, os diretores da ONU sentiram que a pressão estava cada vez maior e acharam melhor tirar o máximo possível de civis do país antes do anúncio, previsto para as nove da manhã de sábado. Na noite do dia 3 nós já estávamos com 85% dos votos apurados e a ONU nos devolveu os passaportes e nos deu uma hora e meia de intervalo para que pegássemos nossa bagagem. Terminamos a apuração às cinco da manhã de sábado e fomos direto para o aeroporto. Saímos do aeroporto pouco antes das 8 da manhã, de volta para a Austrália. Por conta da diferença de fuso, que é de quase duas horas, a gente estava na alfândega do aeroporto de Darwin apresentando os documentos quando viu o início da violência que se desencadeou logo após a divulgação do resultado.

Qual foi a reação das Nações Unidas ao ver toda aquela violência pela tevê?

As Nações Unidas se sentiram completamente impotentes porque, pelo acordo com a Indonésia, eles não podiam fazer nada. Não podiam usar armas, não teriam força de paz permitida pelo acordo. Foi a condição para que saísse plebiscito. A gente sabia desde o começo que se você vai para um país que sofreu uma invasão e procura achar um caminho para a democratização e o país mais interessado em que isso não aconteça lhe proíbe o uso de qualquer arma para se defender é claro que as intenções não são boas.

Se os observadores internacionais e quem acompanhava as eleições saíram, quem ficou no Timor?

Olha, ficaram em Díli aproximadamente 100 oficiais eleitorais trabalhando na ONU. Desses, 65 voltaram nesse vôo comigo para Darwin. Ficou um grupo de pouco mais de 30 que conseguiu sair no dia seguinte, às pressas também. Quem ficou por mais um tempinho foram os policiais civis e militares, mas mesmo eles foram embora na segunda ou na terça-feira porque a pressão da milícia foi muito violenta! Primeiro, eles destruíram hotéis e casas, então começou a não haver lugar para ficar. Depois, começaram a poluir a água para você não ter o que beber. Eles matavam as pessoas e as jogavam nos poços, contaminando a água. Por conta daquela violência toda, a pressão internacional ficou muito maior, até que a Indonésia teve de ceder e permitir a entrada de tropas de paz.

Quando as tropas de paz puderam entrar em Díli?

Elas só chegaram mais ou menos um mês depois do massacre que destruiu Díli completamente. Eu lembro - ao ver as imagens do documentário do Paulo Markun, da TV Cultura - que passava por muitas daquelas ruas todos os dias porque era caminho até o escritório da ONU e hoje está tudo, tudo destruído. Era a zona central da cidade, onde ficavam o mercado, algumas lojas, uma panificadora, lojas de tecidos e roupas, restaurantes. Tudo, tudo destruído. O hotel principal destruído, destruíram tudo.

Nas imagens que correram o mundo mostrando os massacres, a gente via as pessoas recorrendo novamente às paróquias como abrigo, um clima de calamidade...

As paróquias, a casa do Xanana Gusmão, as montanhas, o próprio prédio da ONU, que ficou cercado. Enfim foi aquilo que se viu.

E agora, como o país pode se reerguer?

Muita gente se pergunta se o país teria como se sustentar... Ele tem uma terra que permitiria, com cultivo adequado, ser rentável em algumas culturas, principalmente o café. O café que se produz lá é muito gostoso. Também tem um potencial turístico fabuloso porque as praias são deslumbrantes e em estado bruto. Elas são praticamente virgens. Amigos que trabalharam comigo e que conheciam Bali disseram-me que as praias do Timor são tão ou mais bonitas. Então, se houver incentivo ao aproveitamento ordenado desse potencial, eles podem ter um bom rendimento. Eles têm petróleo e existe a intenção da Austrália de fazer a exploração porque ela detém a tecnologia, de que o Timor não dispõe, e pagaria royalties. Para isso eles dependem desse período de administração provisória da ONU, que deve durar até 2002, quando se pretende dotar o país novamente de um mínimo de infra-estrutura e de instituições que possam garantir os direitos, o dia-a-dia normal de qualquer povo. Depois, será feita uma eleição para a escolha da Assembléia Constituinte para redigir a Constituição e, na seqüência, uma eleição presidencial. Desde já, o Xanana Gusmão é o mais forte candidato.

Você pretende transpor essa experiência que você viveu para o cinema. Do que tratará exatamente esse roteiro que você está escrevendo? Há algo que você possa adiantar?

Eu já desenvolvi uma linha de história do roteiro, que permitiria dois caminhos. Eu vou terminar optando por uma mescla dos dois. Aliado ao drama humano, de conviver com esse povo que havia sofrido uma vida de opressão por muito tempo, gerações inteiras destruídas, famílias separadas e mutiladas, há também o lado humano do trabalho do povo que foi para lá. Nós éramos cerca de 1.000 pessoas de 40 países tendo que trabalhar por uma causa comum. No meu caso específico, eu acredito que o nosso grupo tenha sido o mais significativo de todos os que trabalharam no Timor. Ele foi o único que trabalhava unido, morava no mesmo local, andava sempre junto por questões de segurança. Tanto que a ONU encaminhou um psicólogo para alertar que, na situação em que estávamos, por termos que forçosamente conviver o tempo inteiro com as mesmas pessoas, só havia duas alternativas: ou a gente iria se odiar (risos) ou seríamos grandes amigos!

E por qual dessas alternativas o grupo optou?

Criou-se um vínculo de amizade entre o grupo, tanto que até hoje a gente se comunica por e-mail. Uma colega americana veio me visitar no Brasil e ela está até agora no Timor. Quem está lá sempre manda informações. Esse foi o lado positivo: ter ajudado um povo a encontrar seu caminho para a independência e ter criado esses laços de amizade.

E como era o dia-a-dia do grupo?

A gente não podia ir a lugar nenhum. Até para irmos ao banheiro tínhamos que ser acompanhados por uma escolta. Pelo radiozinho, a gente informava que tinha chegado ao banheiro ou que estava voltando. Muitas coisas que aconteceram eram hilárias e está tudo anotado. Então, a história vai ser dramática, vai ter clima de suspense, porque a gente tinha sempre que sair em escolta, com dois batedores na frente e dois atrás, todo dia num comboio de dez carros. Você não podia ir a lugar nenhum se não fosse assim. Aquele clima tenso, você olhando para os lados o tempo inteiro. Periodicamente, o psicólogo ia nos visitar para fazer uma sessão de grupo para conversar sobre como a gente estava lidando com aquela vida isolada, controlada.

Então você diria que o No Limite, da Globo, é fichinha?

É fichinha. (risos) Eu perdi nove quilos. Minha alimentação básica nesses dois meses foi arroz, peixe e banana. (risos) Tanto que na semana em que fiquei na Austrália, antes de voltar para o Brasil, eu me dei ao luxo de engordar de novo. Pô, a primeira coisa que eu quis foi tomar um banho de chuveiro, porque a gente pegava água de um poço - quando tinha -, botava num tanque e tomava banho de cuia. Foram dois meses dormindo numa cama de campanha, aquelas camas militares de madeira, com uma lona no meio. (risos) Eu queria uma cama, queria ar-condicionado e banho de chuveiro. (risos) Depois disso, a segunda coisa era ir ao cinema e a terceira era comer uma pizza. (risos)

Não havia no Timor nenhuma forma de lazer?

Não tinha nada. O único lazer era a praia, que a gente só pôde curtir no único fim de semana de folga que tivemos, quando a gente terminou o cadastramento, antes do trabalho de educação cívica. Não foi nem um fim de semana inteiro, porque, no sábado pela manhã, a gente teve de prestar contas do trabalho anterior.