1. Central de Atualidades
  2. Reportagens
  3. Timor Leste um ano depois


“Até um ano atrás, tinha tudo: tinha televisão, tinha emissora de rádio, jornal. Era um país normal”, afirma Paulo Markun.

 entrevista com
 Paulo Markun
 entrevista com
 Marden Machado
 um pouco
 da história
  voltar para
  a principal
  reportagens
  anteriores


Paulo Markun (último à dir.) é jornalista e apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura. É diretor do documentário Timor Leste - O Nascimento de uma Nação, uma co-produção da TV Cultura e da Rede Sesc Senac de Televisão.
O que mais o surpreendeu durante sua viagem ao Timor Leste?

O que mais me surpreendeu foi a profundidade da destruição. A devastação foi realmente muito maior do que eu imaginava ou do que eu já havia lido ou até do que o próprio documentário apresenta. Foi uma coisa sistemática de demolir e queimar todos os prédios públicos, os documentos, bairros inteiros. Então é realmente impressionante para quem percorre o Timor Leste perceber isso. E foi o que acabou causando todos os outros problemas, porque 65%, 70% da população está desempregada hoje em dia, não há nenhum órgão público funcionando, nenhuma loja comercial, nenhuma indústria, nada. A economia foi totalmente desmontada. Começa a se reorganizar, mas muito lentamente. E o outro dado que me surpreendeu foi que as pessoas estão felizes apesar de tudo isso, muito em função de terem alcançado a independência e de pararem de ter medo, porque, pelo que me contaram, era uma presença constante na vida dessas pessoas. Igrejas e missas estão lotadas, festas estão lotadas, a praia volta a ser freqüentada. Acho que essas são as duas pontas da transformação.

Sobre a queima dos prédios, uma pergunta que a gente se faz ao ver seu documentário é se as pessoas que viviam neles estão morando em acampamentos...

Uma pequena parte, sim. Uma parte considerável está fora do país ainda. Você tem mais ou menos 100 mil timorenses fora do país. Uma em cada seis pessoas não está morando lá, está no Timor Oeste. Lá, sim, em acampamentos. Por outro lado, há muitas pessoas que estão morando na casa dos outros, famílias agrupadas, pessoas que se mudaram da capital para o interior. Não há acampamentos, salvo nos arredores da capital, aonde chegam os refugiados. Quando eles desembarcam, ficam ali num acampamento até conseguir um lugar. Agora muita gente não está voltando porque não tem onde morar.

A destruição atingiu, além dos bairros habitacionais, toda a estrutura do país, não é?

Foram mais os prédios públicos. Muitas vezes você olha um bairro em que todas as casas estão preservadas e olha um prédio destruído: é sempre uma escola, uma creche, um hospital, uma repartição pública. Enfim, qualquer coisa que fosse do poder público foi destruída, mais até que as igrejas e as casas em particular, mas as casas também foram atingidas em alguns bairros da capital.

Outra questão de sobrevivência básica é a alimentação. No seu documentário o senhor afirma que, em princípio, não há fome no Timor Leste...

Não há porque a alimentação básica deles é o arroz, e o arroz está sendo distribuído. Essa distribuição de alimentos está sendo feita por uma série de organizações não-governamentais (ONGs), que têm muita experiência nesse tipo de atendimento. É algo descentralizado. Eu, por exemplo, não consegui encontrar um lugar - eu imaginava que tinha um prédio - onde todo mundo fosse buscar comida. Não é assim. A distribuição está sendo feita na casa das pessoas, individualmente. O que acontece é que, através do dinheiro que a ONU arrecadou e repassou a essas ONGs, as pessoas têm uma cota mensal de arroz e acabam se virando para arrumar o complemento. A ração básica deles é o arroz e um pouco de milho também. Então, morrer de fome, ninguém morre.

E as crianças estão podendo ir à escola?

As crianças vão à escola mesmo que ela esteja destruída. Lá elas têm uma espécie de aula, que é algo meio bagunçado, porque nem todos os professores são da rede de ensino. Eles não têm material didático, não têm obrigação de ensinar a língua A ou a língua B ou matemática ou ciências. Nada disso funciona. Então a escola é meio um lugar onde as pessoas ficam para não perder o hábito de ir à escola enquanto não começa o ano letivo, que deve estar previsto para começar agora em outubro.

O senhor acaba de comentar essa indefinição a respeito da língua. O Timor Leste é um país que sequer tem uma língua oficial. O senhor acha mesmo que eles vão adotar o português, se só 10% da população fala essa língua?

Tudo indica que a tendência é adotar o português como língua oficial, o que não quer dizer que as pessoas vão falar o português. Mas os documentos, os comunicados, enfim, a burocracia seria em português. Essa é a intenção do CNRT (Conselho Nacional da Resistência Timorense), o organismo que reúne quem tem poder ou alguma influência no país. Há uma resistência da juventude contra essa atitude, mas não há nenhuma proposta alternativa, até porque qualquer solução que se adote no país é complicada. A língua que a maioria fala é o teto. Ela não tem gramática, não tem estrutura para sobreviver, pelo menos para escrever um manual de instruções ou um contrato de trabalho ou de propriedade de um imóvel. Ela não tem verbos estruturados. Eu não conheço a língua, mas foi isso que me informaram. Ela usa muito vocabulário do português. Então, funciona para a comunicação, mas não para as exigências mais formais.

Paulo Markun durante as filmagens.
O senhor comenta que grande parte da economia está sendo movimentada pelo dinheiro que vem dos 13 mil estrangeiros que habitam o Timor Leste...

Imagine o seguinte: os caras ganham 2 ou 3 mil dólares cada um. O timorense ganha 50 dólares, quando ganha. A diferença de salário é tão gigantesca que, mesmo que os estrangeiros não tenham onde gastar, esse dinheiro sempre acaba passando. Ele compra um refrigerante, artesanato, e é isso que movimenta a economia, porque o resto anda muito devagar ainda.

E a presença de tantos estrangeiros não causa nenhum tipo de conflito ou incidente? Afinal, eles têm certos privilégios no país que os timorenses não têm...

Não, não existe isso porque lá no Timor Leste só ficou um lado da história, só ficou quem era a favor da independência. Quem era contra, que lutou ou quis destruir o país hoje está fora. A movimentação na fronteira, no lado da Indonésia, é de guerrilheiros contrários à independência e que, de vez em quando, vão lá atacar um soldado da ONU. Mas as pessoas que vivem no país sabem que essa é a única saída que elas têm. Então, a receptividade em relação aos estrangeiros é total. Não há nenhum tipo de insatisfação, ao contrário. Eles vêem o pessoal da ONU, mesmo o lado burocrático e tal, que é muito devagar, e sabem que essa é a solução, pelo menos por enquanto.

E os 60%, 70% de desempregados, como eles estão usando seu tempo livre, essa ociosidade? Como eles estão contribuindo para a reconstrução do país?

A reconstrução física você vê muito pouco. O que você vê é o povo perambulando de lá para cá, sem ter nada para fazer. Para botar gasolina em um carro são dez pessoas! Um coloca o funil, outro pega a gasolina, outro fica olhando. Em todas as coisas que são feitas, sobra gente. Não existe o que fazer e também não é um povo que tenha o pique de reconstruir o país em dois minutos. Eles têm outro ritmo.

Chega a ser impressionante que com tamanha miséria eles não estejam fugindo do país. Ao contrário, eles estão retornando.

É verdade, mas tem que se ver a história deles. Eles têm 25 anos de luta contra a Indonésia, 500 anos de dominação portuguesa. Os melhores quadros, as pessoas mais competentes, com universidade, que falam outra língua tem muita gente na Austrália, na China, nos quatro cantos do mundo. Na África, em Moçambique, há timorenses. Não se sabe nem estatisticamente o número de pessoas que foram exiladas ou se auto-exilaram durante a dominação da Indonésia. E essa turma não voltou e nem vai voltar tão cedo porque tem mulher, filhos e a vida feita em outro país. A preocupação de quem está lá é como convocar essas pessoas que estão fora para voltar. E quem está lá não tem para onde ir. Alguns foram para a Indonésia, do outro lado da ilha, mas lá também não é um país desenvolvido. O Timor tem uma renda per capita de 240 dólares/ano. No Brasil é de 4,5 mil. É uma distância brutal.

Agora gostaria de comentar essa felicidade de que o senhor falou logo no início. Como ela tem se manifestado?

Em primeiro lugar as crianças são muito receptivas, carinhosas e bem-humoradas. Eu fui filmar alguns policiais em treinamento e, quando eles acabaram o treino, começaram a cantar o hino do Timor. Na festa de Santo Antônio de Lisboa, que é o padroeiro da ilha, havia umas 20 mil pessoas, e o organizador disse que nunca havia tido tanta gente lá na história do Timor. São sinais de que as pessoas estão felizes. É um povo muito simples. Ao mesmo tempo, me disseram que é um povo que explode muito fácil. Há pouco tempo, houve um jogo de futebol em que a seleção do Brasil, quer dizer, os soldados brasileiros, iam inaugurar um campeonato. De repente, teve uma briga em que morreram seis pessoas. Para apartar as pessoas que se pegaram, foi só com a presença do Xanana Gusmão, porque não havia como a ONU intervir. E eles brigam de facão! Eles têm um negócio chamado katana, que é uma espécie de facão com uma ponta meio curvada, em forma de foice, e eles se pegam com aquilo.

E essa violência latente nunca o ameaçou durante as filmagens?

Não, não tive nenhum problema. Havia todas as recomendações: “Olha, tome cuidado” e tal. Mas eu andei por lá, entrei sozinho na feira, com uma câmera pequena, conversei com todo mundo. Não senti em nenhum momento qualquer tipo de hostilidade. O jeito de olhar deles é um pouco diferente do nosso. É difícil de entender o que eles estão querendo dizer. Eu já estou especulando, mas parece um olhar meio de submissão. Mas nessa festa do padroeiro, por exemplo, nós atravessamos no meio da multidão. Eu não vi ninguém bêbado, o que não quer dizer que não bebam. Mas não há uma cachaça, uma bebida típica da região. Eu vi um cara cheirando álcool. Talvez não bebam porque não tenham grana. Mas uma festa dessas no Brasil normalmente está cheia de garotada bêbada, se trombando. E aquilo estava numa paz total.

O senhor acabou de comentar sobre a juventude. A atual geração, que está perdida praticamente, não vai ver o país como gostaria... Isso não causa insatisfação a esses jovens? Não há protestos ou brigas? Há alguns movimentos de protestos políticos, mas que reúnem poucas pessoas. São geralmente organizados pela juventude. Eles têm esperança de que o negócio vai melhorar. Daqui a seis meses, um ano, quando acontecerem as eleições ou quando a ONU sair de lá, quando a vida voltar realmente ao normal, pode ser que as coisas compliquem.

A alegação de que o Brasil não tem tradição de ajuda humanitária justifica a pouca ajuda que o país está dando ao Timor?

Nada justifica o pouco que o Brasil está fazendo. Era para estar tratando melhor deles. E as poucas coisas que se prometeram ainda não foram cumpridas. O problema é que o Timor é muito longe e é difícil de organizar as coisas por lá. Você não tem com quem falar. Eu só consegui ter uma conversa com o Xanana Gusmão porque fiquei na porta por onde ele ia sair e ele me conhecia. Aí eu o interpelei.

Não há telefones então? Existem celulares australianos que funcionam lá. Só que, como tem muito mais celular do que deveria, você liga uma vez, o cara atende; liga outra vez, ele não atende mais porque o telefone não toca ou então porque você não recebe a chamada. É meio confuso.

Então você teve que descobrir no corpo a corpo?

Eu aluguei um celular, mas não adiantou muito, só para algumas coisas. Foi tudo na raça, no sentido de ter que bater na porta do cara e dizer: “Ó, eu sou do Brasil, vim aqui fazer isso e ver como estão as coisas.”

E quando o senhor falava isso, dava para perceber que idéia os timorenses têm do Brasil?

Ah! Eles sabem escalar a seleção brasileira: Cafu, Romário, etc.

Eles conhecem a nossa música ou outros ícones de nossa cultura?

Tocam um pouco. Eu ouvia inclusive música meio sertaneja. Eu não sei dizer como isso chega lá. Mas tudo isso de que a gente está falando parou um ano atrás. Até um ano atrás tinha tudo, tinha televisão, uma emissora que transmitia coisas da Indonésia, chegou a passar novela brasileira, tinha emissora de rádio, jornal. Era um país normal. O Brasil tem uma presença razoável e eles são muito simpáticos aos brasileiros porque o Brasil foi uma colônia de Portugal que se libertou muito mais cedo e porque, no fundo, os líderes do Timor são guardados por soldados brasileiros.