1. Central de Atualidades
  2. Reportagens
  3. Timor Leste um ano depois




Timor Leste, 4 de setembro de 1999. Há exatamente um ano, os timorenses recebiam, de uma só tacada, uma excelente e uma péssima notícia. Às nove da manhã, saiu o resultado do plebiscito que levou às urnas 98% dos eleitores: 80% deles decidiram que o Timor seria um país independente da Indonésia. Não deu tempo sequer para comemorar. À vitória esmagadora nas urnas, seguiu-se a violência brutal nas ruas.

Milícias armadas atearam fogo em bairros inteiros. Prédios e mais prédios vieram abaixo. A seus habitantes só restou o terror. A missão da ONU que acompanhara as eleições e zelara pela paz estava de mãos atadas. Pelo acordo que assinara, estava impedida de recorrer às armas. As imagens da população a perder tudo que tinha, até a liberdade que acabara de conquistar, correram o mundo.

Um ano depois, a ONU está de volta, agora no papel de governo provisório do Timor. Cabe a ela erguer uma nação a partir da estaca zero. O país não tem uma língua oficial, representantes eleitos ou Constituição. Não dispõe das instituições capazes de assegurar os direitos e o bem-estar da população. 70% dos timorenses estão sem emprego e praticamente não há indústria, comércio ou órgãos públicos em funcionamento. Dois jornalistas brasileiros concederam entrevista ao Educacional e contaram histórias deste longínquo país do Oceano Índico, histórias que mais parecem de faz-de-conta.


Marden Machado Marden Machado foi um dos 400 voluntários da ONU sem os quais a primeira eleição da história do Timor Leste nunca teria saído do papel. Oficial eleitoral, ele morou com 30 estrangeiros na casa paroquial de Liquiça, a 32 km da capital, Díli. Marden foi parar no olho do furacão. A casa que lhe serviu de morada fora palco, semanas antes, de um episódio macabro: uma chacina custou a vida a 100 timorenses no final de uma missa. Apesar da pressão de grupos guerrilheiros contrários à independência do país, Marden cadastrou e ensinou o bê-á-bá de uma votação aos eleitores principiantes.

Sem chuveiro e com apenas arroz, peixe e banana no cardápio, ele garante que viveu uma experiência que põe no chinelo as peripécias de No Limite. Nos dois meses que lá ficou, a tensão foi constante. Até para ir ao banheiro, seus passos eram vigiados por policiais. Nove quilos mais magro, ele deixou Díli às pressas no dia 4 de setembro passado, antes de assistir à destruição total do país por guerrilheiros. Saiu de lá como testemunha de um raro momento da democracia mundial: um país indo às urnas por sua independência. Marden pretende contar tudo isso no roteiro do filme que escreve atualmente.



Paulo Markun Se Marden Machado presenciou o primeiro choro do bebê, assim que o país viu a luz após o parto, Paulo Markun pôde ver o Timor Leste engatinhar e ensaiar suas primeiras palavras. Ele foi o primeiro jornalista brasileiro a aventurar-se por lá desde que o país se tornou uma nação independente. Quando lá chegou, a ONU já tinha posto ordem na casa. As milícias armadas foram expulsas para a parte oeste da ilha, 13 mil estrangeiros trabalham na reconstrução do país e a distribuição de arroz pôs fim à fome da população.

Paulo Markun filmou entrevistas com os principais mentores da nova nação: o bispo Ximenes Belo, Xanana Gusmão e o brasileiro Sérgio Vieira de Melo, principal cabeça da administração da ONU. Com eles, pôde descobrir os rumos que o Timor Leste deverá tomar. Tudo indica que a adoção do português como língua oficial e a escolha de Xanana Gusmão como presidente estão a caminho. Mas a principal mudança por que o país atravessa é o retorno da esperança aos lares dos timorenses. É o que se vê no documentário que trouxe na bagagem.






leia as reportagens anteriores