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Haiti: Três visões de uma mesma catástrofe

Por Roberta Obladen

Há meses que os terremotos assolaram o Haiti e, ainda hoje, o país sofre com a catástrofe que chocou o mundo. Nestas entrevistas, é possível conhecer um pouco da realidade com a qual milhares de haitianos deparam-se diariamente segundo profissionais de diversas áreas que acompanharam de perto essa tragédia e o sofrimento desse povo.

Falamos com o jornalista Guilherme Voitch, enviado especial da Gazeta do Povo ao Haiti; com o médico psiquiatra Paulo Alves, enviado especial do Médicos Sem Fronteiras (organização médico-humanitária internacional, independente e comprometida em levar ajuda às pessoas que mais precisam) e com o major do exército brasileiro Renato Eickhoff, voluntário do contingente militar brasileiro (Força de Paz) no Haiti, cada um contou a própria experiência e seu parecer sobre a situação do país.



O que você foi fazer no Haiti?

Guilherme Voitch: Cobrir a visita do presidente Lula ao país e acompanhar o trabalho das Forças Armadas brasileiras.

Paulo Alves: Fui ao Haiti para exercer a função de psiquiatra e de psicoterapeuta, uma vez que após catástrofes como essa é comum o aparecimento de distúrbios psíquicos. Fui trabalhar na cidade de Leogane, com aproximadamente 300 mil habitantes, que teve mais de 80% das casas destruídas ou severamente danificadas. Estas, devido aos tremores secundários, corriam grande risco de desabamento.

A organização Médico Sem Fronteiras montou um hospital com tendas e, uma vez que as urgências clínicas e cirúrgicas eram prioritárias, a equipe de saúde mental tinha de trabalhar debaixo de árvores ou em espaços abertos entre as enfermarias. 

Renato Eickhoff: Como oficial do exército nacional, fui voluntário do contingente militar brasileiro (Força de Paz) que integra a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah). Esse contingente militar tem por finalidade realizar a manutenção de um ambiente seguro e estável no Haiti.



Com qual realidade você se deparou?

Guilherme Voitch: Uma realidade de miséria absoluta. Não há luz, água tratada ou sistema de esgoto na capital. A capital Porto Príncipe lembra uma cidade medieval.

Paulo Alves: Um país severamente destruído, como se tivesse saído de uma guerra com intenso bombardeio aéreo.

 

Renato Eickhoff: Nossa área de atuação compreendia a capital do Haiti, a cidade de Porto Príncipe, mais precisamente os bairros de Bel Air, Cite Mitare e Cite Soleil. Nessa cidade é possível perceber a existência de haitianos muito ricos e muito pobres também. Os ricos correspondem a uma pequena parte da população, transitam em belos carros e habitam mansões no alto dos morros. Nunca imaginava encontrar isso no Haiti.

Os pobres, a grande maioria da população, vivem nas partes baixas da cidade, na zona portuária e próximo ao litoral. A cidade é muito suja, o lixo se acumula pelas ruas, o serviço de recolhimento praticamente não existe. O índice de desemprego é altíssimo e, por isso, o comércio de rua é intenso, vende-se de tudo, seja novo, seminovo ou usado. Isso me causou uma boa impressão, pois mostrou estar havendo uma certa segurança na cidade, permitindo o exercício dessa atividade.

Desde o início percebi que, apesar de sermos uma tropa estrangeira no Haiti e de ser o haitiano um povo extremamente patriota, nós, brasileiros, somos bem-vistos ou, pelo menos, tolerados pela população. Eles admiram o nosso futebol e demonstram simpatia quando veem a bandeira do Brasil em nossos uniformes. Quando os cumprimentamos, respondem sorrindo e dizendo "Brasil bombagai", o que significa "brasileiro cara legal".



O que mais o chocou?

Guilherme Voitch: Na verdade, o que me chamou a atenção foi o fato de, no meio do caos, os haitianos manterem um clima de normalidade e até de cordialidade.

Paulo Alves: Os mais fortes muitas vezes vendiam tendas e alimentos que deveriam ter sido dados aos mais fracos, prejudicando-os. Por outro lado, soubemos da falta de  tendas à venda no mundo por causa da grande demanda.  Portanto, no Haiti, muita gente tinha de dormir em abrigos feitos com panos. Imagine o caos em dias de chuva e à noite.

Renato Eickhoff: A pobreza, a miséria e o lixo pelas ruas. Tudo isso em grande quantidade. É uma realidade que faz mal aos olhos (visão triste) e ao nariz (odor forte). Muitas pessoas não têm o que comer. Até hoje eu não sei como sobreviviam. Lá não existe gás de cozinha para os pobres, ou seja, tudo é preparado a lenha e, por conta disso, a cobertura vegetal do país foi praticamente destruída. Água encanada é artigo de luxo, assim como o banheiro dentro de casa. Banho e satisfação das necessidades fisiológicas são na rua.

Sempre que saía da nossa base, levava no bolso da minha calça um punhado de balinhas — era um alento para algumas crianças. Mas até para isso era necessário cuidado. Tinha que fazer a entrega de forma bem disfarçada, pois do contrário a confusão era certa.

Tive a oportunidade de conhecer o país vizinho ao Haiti, a República Dominicana. A pergunta logo vem: “Afinal, como pode ser o país vizinho, a República Dominicana, um verdadeiro paraíso caribenho e o Haiti ser tão pobre e devastado pela miséria, se ambos são banhados pelo mesmo mar e pertencentes à mesma ilha?” A resposta está numa série de fatores ligados ao processo de formação e construção social, econômica e política do Haiti. Mesmo após estudar e reestudar esses fatores, fica difícil de se entender essas disparidades.



Há situações pelas quais os haitianos passam e que não são noticiadas aqui?

Guilherme Voitch: De modo geral, a cobertura da imprensa brasileira tem sido bastante realista. O único problema é que o Haiti seja esquecido depois de algum tempo.

Paulo Alves: A falta de recursos do país, somada à dificuldade da chegada de ajuda humanitária e à crueldade de alguns grupos mais poderosos foi muito chocante. Sobre esse último dado não vi divulgação por aqui.

Renato Eickhoff: Considero que a imprensa brasileira e outros veículos de comunicação têm feito um bom trabalho de divulgação da realidade haitiana para os brasileiros.



Como é visto o exército brasileiro?

Guilherme Voitch: No geral, as tropas brasileiras são bem-vistas pelos haitianos. As Forças Armadas conseguiram estabelecer uma relação de confiança com os locais.

Paulo Alves: Não vi participação do exército brasileiro na cidade onde trabalhei porque ele está mais presente na capital, Porto Príncipe. As pessoas com quem conversei em Leogane tinham uma visão positiva não só de nosso exército como de brasileiros em geral. São grandes torcedores da seleção brasileira de futebol e ouvi de alguns que eles torcem como se fosse a seleção do próprio país. 

Renato Eickhoff: O exército brasileiro é muito bem-visto pela população. Das tropas que integram a Minustah (Brasil, Nepal, Jordânia, Peru, Equador, Bolívia, Sri Lanka, China, entre outras), o Brasil certamente é o que desenvolveu maior capacidade de relacionamento com a população, conquistando o respeito e a admiração do povo haitiano. Sem dúvida, o famoso “jeitinho” brasileiro muito nos ajudou para essa conquista, assim como a variedade étnica e cultural que caracteriza o nosso povo, ou seja, um exército composto de brancos, negros, amarelos, índios..., convivendo na mais perfeita harmonia, sem qualquer tipo de preconceito.



Qual a característica do povo haitiano que mais lhe chamou a atenção?

Guilherme Voitch: A rejeição à submissão. Os haitianos são orgulhosos e prezam muito a honra. Mesmo em uma situação de pobreza absoluta, buscam andar sempre bem-vestidos e nunca estão descamisados. Andar sem camiseta lá remete ao período de escravidão colonial.

Paulo Alves: A descrença nas lideranças políticas, que dizem ser tremendamente egoístas, corruptas. Segundo eles, somente por meio de influências no governo é que alguém pode progredir na vida. Há um evidente pessimismo quanto ao futuro do país embora, individualmente, encontremos pessoas afáveis e alegres.  

Renato Eickhoff: O patriotismo: o haitiano tem muito orgulho da sua história, pois o Haiti foi a primeira nação latino-americana a conquistar a sua independência, quando colônia francesa. Em todas as partes da cidade é possível ver as bandeiras do Haiti ou pelo menos as cores azul e vermelha pintadas nos postes e muros.

A capacidade de sobreviver em meio a tanta adversidade e mesmo assim abrir um sorriso ao ser cumprimentado.

Talvez por serem vítimas de tanta pobreza, ou seja, por ser um povo sobrevivente, percebi, lamentavelmente, a falta de solidariedade entre eles. Quando fazíamos a entrega de comida, tínhamos que prover a segurança daqueles que a recebiam, pois do contrário seriam roubados. Não por aqueles que estavam famintos, mas por aqueles que a venderiam para comprar bebidas ou drogas.



A violência está controlada?

Guilherme Voitch: Aparentemente sim. Mas a Força de Paz da ONU teme que os criminosos que fugiram das cadeias durante o terremoto voltem a agir.

Paulo Alves: Até o momento em que saí estava. Em Leogane, a visão de soldados e tanques de guerra nas ruas causava constrangimento aos habitantes.  

Renato Eickhoff: Nas áreas de atuação brasileira sim. Pode-se dizer que o índice de criminalidade é menor do que nas grandes capitais do Brasil, a exemplo do Rio de Janeiro e São Paulo.



Há esperança no Haiti?

Guilherme Voitch: Não em curto prazo.

Paulo Alves: As grandes crises podem servir para pessoas e coletividades repensarem positivamente suas vidas. Caso a ajuda ao Haiti seja bem organizada, penso que eles poderão sair da crise como uma nação mais bem estruturada e justa.

Renato Eickhoff: Sim, há. Mas é necessário muito empenho das autoridades internacionais. Somente com a ajuda externa isso será possível. Serão necessárias muitas obras de infraestrutura. Trata-se de um povo que, desde a sua independência como colônia francesa, foi extremamente explorado pelos seus governantes. O povo haitiano necessita de educação, de informação e, dessa forma, reescrever alguns aspectos da sua cultura. É um problema que só será resolvido em longo prazo, pelas próximas gerações.



Está havendo uma reconstrução no país ou por enquanto é só assistencialismo (distribuição de comida, roupas, etc...)?

Guilherme Voitch: Apenas medidas assistenciais, sem as quais o país não sobrevive. Não há nada para ser reconstruído, aliás. O país precisa sair do zero.

Paulo Alves: Permaneci no país até o final de fevereiro, ou seja, menos de dois meses após a catástrofe. Até então, só havia assistencialismo.

Em meu trabalho com dinâmicas de grupo, achei importante estimular discussões sobre a reconstrução do país — o que, a meu ver, era um trabalho terapêutico e estimulava a participação dos pacientes nessa reconstrução.

Espero ter deixado alguma semente que possa frutificar.

Renato Eickhoff: Penso estar havendo tanto a reconstrução como o assistencialismo. Considero que ações mais eficazes poderiam ser adotadas pelos organismos internacionais, no sentido de se promover uma reconstrução social, política e econômica mais efetiva naquele minúsculo país. Mas sei que aí existe uma série de fatores e interesses que certamente estão além do meu entendimento... Nesse caso prefiro focar na missão do nosso exército, da nossa tropa no Haiti, que tem desenvolvido, sim, uma variedade de atividades voltadas para a manutenção de um ambiente seguro e estável no país e para a sua consequente reconstrução. Estão sendo realizadas patrulhas conjuntas com os policiais haitianos (ocasião em que os nossos soldados demonstram aos policiais haitianos o modus operandi adequado, baseado no respeito aos direitos humanos), cursos de primeiros socorros para líderes comunitários, reconstrução de escolas, pavimentação de estradas, perfuração de poços artesianos, aulas de karatê e capoeira, escolinha de futebol, projetos de reflorestamento e limpeza urbana, etc. O povo brasileiro pode se sentir orgulhoso dos seus soldados que estão representando bem o Brasil na reconstrução do Haiti.


 
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